Perdi o ar – Dias (IN)Comuns – Dia 292

Perdi o ar. As pálpebras não atendiam os olhos secos e permaneciam suspensas. A boca desértica não encontrava oásis. O jovem rapaz equilibrava-se na corda estendida entre as torres gêmeas que hoje são lembranças do que a intolerância e a violência causam.

O filme da noite anterior ecoa hoje. Passamos a vida nos equilibrando num fardo, enquantos alguns fazem do equilíbrio a própria vida. Aprende, dedica, testa e realiza.

Perdi o ar. Quanta coragem para subir tão alto e passar por um cabo de aço estendido. Quanta determinação para não para diante dos obstáculos. Quanta capacidade emocional para controlar o medo, driblar a insegurança e acalmar a vaidade. Quanta dedicação e disciplina para planejar e realizar.

Um louco, é mais facil apontar. Poderia ter sido a história de uma tragédia. E ele sabia disso. No entanto, quem busca o impossível tem à espreita, na sombra da vida, a tragédia. Ele a convidou para o show, não a ignorou mesmo temendo.

Que graça tem a vida encaixotada para evitar uma suposta tragédia? E há garantias de que seja de fato evitada?

Perdi o ar porque colocamos a vida na corda bamba mesmo quando temos os pés no chão e não sabemos equilibrar.

Mas meus olhos secos e a boca desértica entenderam que é o controle de si mesmo, a disciplina e o preparo que dão firmeza aos passos e deixam a corda da vida pronta para a travessia.

Perdi o ar e quando recuperei tratei de ir planejar o impossível que pretendo realizar.

Talvez eu seja repetitiva – Dias (IN)Comuns – Dia 291

Talvez eu seja repetitiva, mas a primavera também é e esperamos ansiosos por ela. Não, isso não é uma súplica para que esperem por minhas repetições como o cachorro espera fielmente por seu humano amigo. Apenas entendam, aqui dentro há ciclos imensos como os da natureza e pedem expressão.

Andei muito tempo semente e estou gostando de flertar com a flor. Deixem-me contemplar antes que a noite fique comprida demais.

Passei pelos dias que ficaram para trás. Vi mares, flores, crianças, pássaros, sonhos, família, letras e viagens. Ah, que primavera florida!

Deixem-me contemplar antes que a noite fique longa demais.

A contemplação não me entorpece, nem deixo de ver a solitária noite fria a despontar no horizonte.

De nada adianta maldizer o inverno. É preciso vestir os pesados casacos, calçar as luvas, proteger a cabeça com gorros aquecidos e o coração com cachecóis coloridos. Dar cor ao tempo cinza. Acordar a vida entristecida.

Hibernar também é caminho. Desfolha, finge de morto, escolhe o porto que vai atracar. Espera a tempestade passar. Porque vai passar.

Talvez eu seja repetitiva, mas os desafios também são e não tem como deles escapar.

Talvez eu seja repetitiva, mas não dá para escolher o que vai bagunçar a minhas estações, três meses para cada uma está bom demais.

Talvez eu seja repetitiva, mas por fim nas estações… aí já é demais! Nem falo (nem) nada!

De volta – Dias (IN)Comuns – Dia 290

Nunca pensei que demoraria tanto. Quase dez dias se passaram e só agora estou de volta. O que me levou, trouxe-me trouxe: as palavras.

Poucos dias podem trazer muitas mudanças. Já tinha pensado no texto do último dia do ano – “O rio não se importa com o feriado, continua indo para o mar. As corujas buraqueiras continuam vigiando o ninho no meio da praça em reforma há mais de ano”. Para minha surpresa as corujas estão ameaçadas pelo avanço da reforma na praça. O texto precisa de revisão. Poucos dias trazem mudanças.

O movimento promove essa constante necessidade de revisão. De volta, demorei para aterrissar, sentia-me lá, a revisão atrasou. A pausa se fez fundamental.

Voltar às atividades com a escrita criativa me trouxe de volta de vez. As palavras abriram as asas e me levaram tão longe. Hoje as palavras me deram as boas vindas com as estórias e os poemas num abraço tão gostoso que passei o resto do dia poesia.

De volta, lapidando palavras para seguir viajando com e por causa delas.

Desagradável – Dias (IN)Comuns – Dia 289

Reclamar é desagradável, mais ainda é chuva aos cântaros sem descanso deixando ranço e mofo pelos cantos.

Não sou de maldizer a natureza, mas está desagradável viver assim. Da janela do quarto vejo o mar. As ondas raivosas se jogam nas pedras, a espuma sobe e só vejo as nuvens densas. Desconfio que desejam ser o mar.

Desagradável feito gente ranziza a chover suas mazelas. Devia existir capa de chuva para essa situação.

Desagradável feito gente que para cada solução faz cair um temporal de problemas. Devia existir blindagem para tanto raio e trovão.

Desagradável feito roupa que não seca e fica com aquele cheiro de cachorro molhado. Devia existir desumidificador de ranço animal.

Desagradável feito maquiagem borrada em festa chique. Devia existir aplicativo desborrador de maquiagem escorrida depois da partida.

Chuva faz bem, hidrata, dá vida. Mas quando passa da conta enruga a pele, mofa o guarda-roupa, dissolve a vida. Desagradável, tanto quanto a falta no sertão.

Professar – Dias (IN)Comuns – Dia 288

Professar pede coragem. É preciso carregar bagagem pesada, outra vezes deixar tudo para trás.

Professar pede humildade. Não deixar o conhecimento adquirido abafar a possibilidade do outro ouvido. É silenciar a boca da arrogância para falar a voz do encontro.

Professar pede espaço. Ainda que seja na caixa de fósforo é preciso alargar. Falar para muitos, sentar com um.

Professar pede respeito. Saber diverso e único. Olhar profundo o todo e reverenciar o plural com maestria.

Professar pede aprender. A linha do tempo surge da jornada. A história mostra, indica, aponta, mas a caminha faz o caminho. Sem aprender é mais do mesmo na teia do medo.

Professar pede desprendimento. Aprender, desaprender e a tudo estar atento. Deixar ir o que já não serve e não espantar a novidade que desponta.

Professar pede amor. Cola que liga a vida à realidade sem perder a dignidade. Se há brilho ou tropeços é o que encanta, encorpa e engrandece.

Professar pede professor. Porque ensinar é aprender.

Sete dias – Dias (IN)Comuns – Dia 287

O dedo indicador corria a tela do celular e as imagens saltavam grandes da televisão. A tecnologia agiganta as fotos já imensas dentro de mim.

Sete dias se passaram no calendário e foram pelo ralo com a chuva teimosa. Mas a memória estampou os dias de aprendizado nas fotos registradas.

Sete dias. Uma semana cheia de celebrações e histórias. Levar estórias e ver tudo mudar de lugar com os livros alarga a minha esperança nos que cultivam as letras contadas e cantadas.

Há sete dias embarquei de volta para a casa. Enquanto tirava os pés do chão a alma flutuava. O corpo chegou e ainda estou lá.

Sete dias e as imagens não conseguem revelar a grandeza dos momentos vividos. Espalhar livros, colecionar histórias, escrever. Sete dias.

Não sei – Dias (IN)Comuns – Dia 286

Queria ver a vida por um binóculo. O meu astigmatismo deve estar bem elevado e já não enxergo como a maioria.

Não sei se o que vejo é mancha de ontem ou o esboço de amanhã. A tinta é a mesma. O papel borrado deixa o traço à deriva.

Não sei. E já não quero saber se o riso é largo ou o rio é raso. Espaço de alma não se mede com régua. A vida se aproxima de quem quer viver.

E a vida festeja. Ri e graceja. Vale saltos, vale rodopios e festejos. Há quem role e caia no chão. Risada generalizada. Vida afortunada.

Não sei, mas vejo a vida por um binóculo. Amplio a alegria dos encontros em familia. Festejo o dia e celebro os anos dos ciclos fechados. Celebro o dia do novo que acorda.

Ver por um binóculo amplia o que quero ver e o que desejei deixar ali embaixo do tapete. Ampliar mostra até o que não quero ver.

Hoje rimos, brincamos, comemos todos juntos.

Não sei. Rir é bom. Encontrar é bom. Amor é bom. Não sei, mas tem dias que valem por um ano inteiro.

E a criança sou eu – Dias (IN)Comuns – Dia 285

Os olhos permaneciam cerrados, mas a luz encontra brechas e entra sem pedir licença. Tento me ajeitar para dormir um pouco mais. Escuto vozes que ainda não cresceram do lado de fora e decido levantar.

Colchão pela sala, as crianças espalhadas e ao mesmo tempo amontoadas. Não descobri de imediato quais eram os meus.

Risada, correria, brincadeira. Nem o dia chuvoso tirou a bênção de Nossa Senhora. Quem sabe brincar faz da tempestade uma aventura no alto mar da enxurrada. Na ventania sobe a pipa e os olhos vidrados na dança do vento correm para o outro lado da rua querendo mais brincadeira.

E a criança sou eu, menina atenta na brincadeira das crianças. O riso espaçoso na sala de estar.

Ah, que delícia ver essa algazarra. Passeio na orla, jogos na sala, farra em família. E a criança sou eu. Lembranças guardadas dos dias da criança que fui.

Os olhos permaneciam cerrados, mas a luz encontra brechas e entra sem pedir licença. A criança que fui me visitou, enquanto as crianças da casa brincavam com o dia delas. Por isso, hoje, a criança sou eu.

A areia, as gotas e a menina – Dias (IN)Comuns – Dia 284

Pequenas gotas pingam incessantes. O vento espalha as folhas e leva longe a areia. Areia espera ansiosa a ventania para ir além da orla. Outros esperam o fim da revolta dos ares para juntar os grãos finos de esperança no canto da porta da cozinha.

A menina também quis se espalhar. Fez hora, brincou de bola, rodopiou na valsa, saltou poças. Nem se importou com a bagunça no cabelo e o volteio desencontrado.

As gotas ficaram grandes, cresceram no correr do dia, avolumaram e escorreram desordenadas como a areia no ar revolto. Revolta também é a vida na maré de altos e baixos.

A menina também revolta os olhos atentos e salta de um lado a outro no alvo globo, volta.

Areia é menina solta brincando com as gotas. Ora se beijam, ora se espalham. Menina se desfaz em gotas que molham a areia fina. Ora se abraçam, ora se deixam. As gotas são a cola da areia. Oram se prendem, ora se largam.

A menina também é areia, sabe que seu lugar e no mar, mar ama ficar solta no vento e voar.

Parece que foi ontem – Dias (IN)Comuns – Dia 283

Há momentos que os anos não tiram a tinta e nem precisam de restauração para vivificar.

Parece que foi ontem. Ainda posso sentir meu corpo anunciando a sua chegada. Eu tão inexperiente ouvi mais o que vinha de fora e você chegou um pouco antes do previsto. A vida é imprevisto na linha do tempo e nós somos o narrador num improviso.

Como é possível esquecer o que ontem andou de salto requintado pelo meu cérebro e alcançar com as mãos da memória sem tirar o pijama o que está guardado no tempo que os anos levou? Parece que foi ontem.

Quantos passos dados, quantos projetos sonhados, quanta vida!

Parece que foi ontem. Braços e pernas mexiam-se naquele bercinho distante. E eu te queria ao meu lado. Nem minha pouca experiência, nem meu jeito desajeitado, nada foi maior que a leoa que surgiu em mim para te acolher, cuidar e proteger.

Fecho os olhos e parece que foi ontem que dormi a última noite antes de você chegar e trazer a revolução que se chama maternidade.

Parece que foi ontem, mas amanhã completa dezoito anos.