As palavras, a corrida e a queda

Desde que a obsolescência programada do calendário pôs fim ao ano de 2018 e encerrou meu compromisso com o Dias (IN)Comuns meus dias ficaram vazios.

Claro que sempre tenho o que fazer: quatro filhos, dois gatos, um cachorro, férias mais quentes que o Deserto do Saara com sol a pino, dois projetos aprovados em vias de dar início, mas ver o dia comum com um charme incomum me pegou de jeito.

Tentei negar, afinal dar importância para pequenas bobagens da vida corriqueira não tem glamour nenhum. Quem se interessa?

Antes da virada decidi me dedicar à corrida. Acho que as letras pensaram que eu queria correr delas. Janeiro já caminha para o fim e nem um mísero texto.

Desconfio que o alfabeto se juntou para tramar a minha queda. Dormi feito pedra. Quando o dia acordou meu corpo me implorou para continuar dormindo.

Mas peguei gosto por cumprir meus pequenos desafios diários. Por isso levantei e me fantasiei de atleta.

Comecei a corrida no nível levíssimo, assim consigo correr quase dois quilômetros e as vísceras permanecem quase intactas. O coração acelera um pouco, os pulmões pedem mais oxigênio, mas os bofes não saltam para fora.

Quase chegando ao final da orla um tropeço no desnível da calçada (ou uma rasteira das letras abandonadas) e eu literalmente beijei o chão.

Consegui ralar a mão esquerda no dorso e na palma. Joelhos e cotovelos ralados, um fone de ouvidos quebrado, nariz e queixo arranhados, a boca em segundos parecia ter recebido um quilo de botox.

Quando criança morria de vergonha de cair. Hoje aproveitei para chorar as dores que as cicatrizes não contam.

Talvez amanhã eu não consiga correr, entretanto aprendi a seguir caminhando, mesmo que seja mais lenta, mesmo que seja com o joelho ralado.

Não quebrei nem os braços, nem as pernas, nem os dentes. Apenas o fone de ouvido ficou avariado.

Algumas palavras podem nos quebrar (ou derrubar), mas eu que não vou quebrar a minha palavra comigo.

Trezentos e sessenta e cinco dias – Dias (IN)Comuns – Dia 365

Trezentos e sessenta e cinco dias zerando o calendário. A terra completa uma volta em torno do sol e eu completo essa volta com as palavras.

Os olhos estão marejados. As ondas do mar arrebentam dentro do meu peito, uma nuvem de borboletas infesta meu estômago e sobe para brincar nas ondas. Sorrio enquanto uma gota pesa e desce desenhando minha face.

Eu sei, o mundo é duro e a realidade é cruel. 2018 fez de tudo para nos mostrar isso. Pessoas queridas partiram; a economia do país ruiu; as eleições mostraram que a Idade Média ainda vive; e, grandes livrarias fecharam.

Preciso concordar que esses dias não têm sido fáceis. Mas o que posso fazer se vejo o mundo com lentes coloridas? Assim pareço piegas (e sou) e boba (e sou?), mas se tem dor ou alegria tudo vira poesia.

Hoje a cidade está lotada e lá fora o vai e vem é frenético. Já organizei tudo o que precisava. Evitei com louvor o que poderia tirar a minha paz. Sensação boa de dever cumprido.

Pensei que nesse último dia do ano falaria das corujas buraqueiras na praça sem árvores, mas cimento e tijolo cresceram feito massa de bolo. As aves tiveram que se mudar. Meu encontro comum com as corujas se transformou num incômodo nada incomum, daqueles que dá vontade de chorar. Algumas despedidas marcam toda a vida. Algumas ausências serão sempre presenças.

E a gente muda de roupa, muda de casa, muda de cidade, muda e vai mudando porque parar é morrer. Virar o ano é renovar (reciclar) a esperança.

Trezentos e sessenta e cinco dias mais que incomuns, dias que aprendi a olhar com atenção para cada um deles. Nem todas as percepções foram contadas, no entanto, cada palavra carrega todas as emoções de viver plenamente.

Trezentos e sessenta e cinco é o fim, e o fim é só o começo. Salve o ciclo que se encerra. Salve o ciclo que desponta ali naquele horizonte lindo de céu e mar.

O pavê e os turistas – Dias (IN)Comuns – Dia 364

Hoje teve receita que nunca fiz. É o tal do pavê. Duas horas na cozinha. Quem já esteve comigo sabe que não é o meu lugar predileto. Mas gosto de aprender coisas novas.

O dia quente e a véspera da véspera trouxe gente de toda sorte para as ondas salgadas do litoral. Um infeliz parou com metade do seu carro na minha garagem. Levou uma multa e o carro não pegou, largaram a lanterna acesa o dia todo.

O pavê ficou pronto, mais turistas fizeram turistisses e a Giullia falou numa simplicidade verdadeira que ri:

– Mã, essa virada vai ser a mais engraçada. Vamos rir muito!

Nisso, via mais um carro levando multa porque parou em lugar indevido. Desculpem, mas eu rio desses turistas inconsequentes.

Que turista tenho sido? Às vezes nos apropriamos dos lugares, entramos pelas frestas, invadimos, colonizamos.

Preferi deixar a guarda municipal da cidade fazer o trabalho deles, voltei para os quitutes de amanhã. Não vale a pena bater boca com imbecis – “eles passarão, eu passarinho“.

Da varanda vejo o dono do carro que tinha mais da metade do carro parado na minha garagem numa labuta inútil para fazer funcionar o carro que passou o dia com os faróis acessos. Desculpem de novo, mas eu ri.

Enquanto os turistas se atropelam eu aprecio a paisagem. Ser turista é aprender a ser parte não parasita. Amanhâ a promessa é de sol para todos.

Acordei cedo – Dias (IN)Comuns – Dia 363

Acordei cedo. O tênis roxo e pink aguardava meus pés. Juro que eu queria ficar na cama, ainda não eram nem sete da manhã. Mas se a falta de sol deprime, sua presença assanha. Shortinho preto com listras brancas na lateral, camiseta leve por cima do top, um aquecimento rápido do corpo e fui.

É simples. É fazer. O negócio é que a gente arruma mil desculpas para não fazer. Hoje eu estava com sono, a temporada trouxe tantas atividades que os mais velhos ficam andando de um lado para o outro e eu monitorando. Ótima desculpa, no entanto aprendi com uma amiga a dar nome para essas desculpas e foi assim que falei com a Zefa:

– Zefa, tá com sono? Deita e dorme porque o sol já está alto e me chama. Fica aí passando calor na cama que eu vou fazer a minha caminhada.

Não sei se você sabe como é bom se propor a fazer algo e fazer. Damos muito valor para as grandes conquistas. Se olhássemos com carinho para as pequenas teríamos a medida real da grandeza que realizamos.

Esse ano foi doloroso, muito. Na mesma medida trouxe oportunidades que só quem acorda cedo para caminhar consegue ver lá no horizonte, onde o sol brilha enquanto tantos dorme.

Não, isso não quer dizer que você tem que acordar cedo se não é a sua praia, mas que vale a pena descobrir em qual horizonte nasce seu sol.

Para descobrir o meu me demoro menos nas crises e logo alcanço meu horizonte. Quando menos se espera chega a tormenta, no entanto para quem sabe para onde vai é mais fácil alterar a rota e encontrar o caminho certo.

Acordei cedo e fiz tanto com tão pouco que você pode até duvidar. Acredite meu ano foi feito de muitos poucos e se encerra grandioso. Aposto que o seu também.

Perigo: a imprudência não tira férias – Dias (IN)Comuns – Dia 362

O barulho intermitente e estridente é uma marca da alta temporada. Se por um lado a educação pega sua mala e some nas férias, a imprudência parece nem saber o que isso significa.

Perigo: a imprudência não tira férias. Enquanto o salva-vidas insistente, mescla o apito estridente com o movimento firme dos braços num pedido de ‘voltem o mar está perigoso‘, vejo cinco jovens imprudentes ignorando o apelo.

O jovem salva-vidas tenta mais uma vez e adentra o mar, chega perto conversa algo que não posso ouvir, óbvio, mas imagino já que se vira para orla e aponta as inúmeras placas de perigo.

Os cinco regressam um pouco e caminham para o lado oposto ao do profissional do mar. Minutos depois já estão novamente além da faixa mais segura para o banho.

Hoje, felizmente, não ouvi a sirene dos bombeiros. Nessa época quase sempre indica afogamento. A imprudência desconsidera isso, a juventude parece que também.

Já ouvi críticas quanto à demora do socorro. Mas hoje fiquei pensando nos imprudentes que ignoram os sinais e depois exigem rapidez.

Via o salva-vidas caminhando em vistoria ao seu trecho e o grupo no mar observando por onde ele andava para ‘fugir’ do apito e da orientação.

Se Darwin ainda fosse vivo talvez mudaria sua teoria da evolução e afirmaria: não é o mais forte, nem o mais inteligente, nem o que se adapta melhor que sobrevive, mas o que consegue passar ileso por suas imprudências,

Por um instante vi a praia em polvorosa, um círculo de curiosos e os salva-vidas tentando reanimar os cinco enquanto chegava o resgate; as famílias apreensivas gritavam implorando agilidade e ignoravam a imprudência pueril que pós fim a sua espécie.

Perigo: a imprudência não tira férias e sai por aí vestida de um invencível (ou imbecil) super herói.

Quando ou antes? – Dias (IN)Comuns – Dia 361

Quando ou antes? Essa pergunta ecoa em minha cabeça. Os planos para o Ano Novo são quase unanimidade, mas será que só quando ele chegar que devemos agir?

Depois de muito postergar aceitei o convite do marido para uma caminhada na orla. A ideia era correr, projeto para quando 2019 nascer na noite luminosa. A gente pensa que é mágica: estalando os dedos, estourando os fogos e a rolha da champagne voando bem alto são a garantia da realização dos projetos.

Às vezes os dedos estão machucados. Às vezes chove aos cântaros. Às vezes acaba o estoque de champangne.

Por isso, hoje bem cedo, antes que o ano acabe, comecei a fazer meu novo ano. Não sou dada à pressa ou à perfeição, prefiro o capricho. A pressa atropela a vida e o prazer; a perfeição é ilusão; capricho é zelo e cuidado, isso pede tempo e dedicação.

Quando quiser algo de verdade, comece antes porque quando chegar a hora a vida ensinou o caminho. Pode até haver percalços, erros e obstáculos, mas já estará no embalo. Talvez desacelere um pouco; talvez mude a rota; talvez pegue outra condução; talvez precise de uma sombrinha, ou capa de chuva; talvez apenas pare para abastecer, ou apreciar a paisagem. No entanto, depois do primeiro passo saberá que é possível chegar e desistir não é uma escolha.

Quando ou antes? Para quem procura desculpas para não fazer: quando a chuva passar, quando a faculdade acabar, quando o filho crescer, quando o Ano Novo chegar. Para quem procura motivos para fazer: antes que a chuva caia, antes que termine faculdade, antes que filho cresça, antes que o ano acabe.

Antes que o ano acabe escolha aquela ideia bacana guardada a sete chaves e se mexa. Ela vai adorar chegar antes do Ano Novo!

Paga a pena? – Dias (IN)Comuns – Dia 360

É comum recordar-me de expressões dos meus avós. Há alguns anos viraram eternos, pelo menos para mim e para Deus, mas suas ideias permanecem comigo. Em dias como hoje mais ainda.

No jornal, as tragédias fazem meu coração diminuir, parece um grão de feijão. Ainda bem que aprendi nos primeiros anos da escola como se cultiva feijão, já que coração não se cultiva mais.

Minha avó via uma situação enroscada e já perguntava:

– Paga a pena, fia?

Ela dizia que tinha situação que não pagava a pena, mas que tinha dia que a gente precisava pagar porque o imposto depois era mais alto.

Paga a pena tanta comilança se depois vai passar o ano a míngua só para no próximo fim de ano exagerar na comida?

Paga a pena a selfie na praia com um sorriso largo se para dormir toma dois ansiolíticos?

Paga a pena estar num bate-bola que não se pode fazer o gol senão o dono da bola encerra o jogo?

Paga a pena estar no litoral se não suporta sol e areia, mas faz um sorriso largo para as redes sociais?

Paga a pena arrumar a cama para dormir se não tem sono?

Minha avó, a cada situação que surgia, enchia a xícara com um café passado na hora, ficava escorada na pia com o pé direito na lateral do joelho esquerdo. O chinelo de couro em xis repousava no chão enquanto ela olhava para a porta da cozinha e perguntava sem medo da resposta:

– Mas isso paga a pena, fia?

Encerro meu Natal e espero o Ano Novo não com pedidos, mas com uma pergunta para tudo que faz parte da vida hoje – paga a pena?.

As respostas vão desenhar meus dias do próximo ano. Pergunte-se também e aja. O ano novo não espera e logo acaba.

E para que servem os encontros? – Dias (IN)Comuns – Dia 359

Desde criança bem pequena gosto dos encontros. Os de fim de ano eram mais especiais porque reuniam maia pessoas, algumas que não se via a anos. Jóia rara, presente inestimável.

Talvez se pergunte: e para que servem os encontros? – Afinal, os desencontros são mais presentes e fazem mais sentido num mundo que exacerba as disferenças e minimiza o que une. Aquela supercola que nos coloca tão juntos e misturados que só se ouve um sonoro:

– Uau! Somos tão iguais apesar de tantas diferenças.

Para isso servem os encontros, ouvir as histórias que nos unem. E hoje teve tantas delas, algumas que nunca ouvi em vinte anos, outras que ouvi tantas vezes que às vezes penso que fiz parte delas.

E para que servem os encontros? Desconfio que são para pavimentar a estrada da vida. Sem os encontros a vida são blocos perdidos, isolados à deriva.

Quando há encontro verdadeiro a realidade se transforma e os blocos perdidos encontram o caminho. A gente se conhece e reconhece. As histórias nos juntam, não importa se é para rir ou chorar.

Não se iluda porque um encontro, às vezes parece uma topada dolorida. Nesse caso há o risco de hematomas e inchaços porque o choque abala a vida. Mas nada que um vom encontro consigo mesmo não possa curar e cuidar das feridas. É possível que esses encontros tragam tantas perguntas que se pense trm algo errado, mas é só a vida falando que a vida é feita de perguntas e não de respostas.

E quando as histórias faltarem não tema, basta promover um bom encontro e vida está salva. Mesmo que haja lágrimas.

Hoje, as histórias foram de rir, outras para pensar, algumas para se emocionar. Para isso servem os encontros.

A véspera – Dias (IN)Comuns – Dia 358

A véspera e a soca (só-ka) são os melhores dias de uma celebração. O dia ‘mais importante’ tem todo um aparato para registrar, inúmeras fotos e vídeos cheios de técnica, mas recordo-me bem de momentos que não houve um registro sequer.

Na véspera do meu aniversário de quinze anos eram familiares e amigas juntas fazendo os bombons e as lembrancinhas.

Na ‘só-ka’ do meu casamento tinham várias mesas espalhadas na porta da casa dos meus pais e os amigos reunidos numa algazarra só.

Na véspera da minha formatura foi incrível encontrar amigos e familiares sem me preocupar com roupa e maquiagem.

Na ‘só-ka’ da formatura do meu marido ríamos dos lances do baile, das piadas com os trajes enquanto curtíamos uma piscina com churrasco sem preocupar com agora que o buffet encerra o serviço.

Só consigo me lembrar de quatro dias em que o evento principal superou a véspera e a soca: o nascimento dos meus filhos. Tenho o cheiro, as cores, o medo e a alegria vivos aqui dentro.

Hoje, véspera de uma celebração Cristã, traz a alegria da mensagem de Cristo que celebrou o amor todos os dias. Para ele nunca houve véspera para celebrar e viver o amor, nem a soca porque praticou até o seu último dia na Terra.

Que os presentes se transformem em presença amorosa.

Que a mesa farta se transforme em amor e luz, para que nossas vidas não sofram de inanição de propósito e empatia.

Que a véspera e a soca sejam melhores que as festas protocolares porque a festa do amor não tem dia nem hora para começar ou acabar, é uma decisão e a atitude todos os dias.

Feliz Natal!

A civilidade sai de férias? – Dias (IN)Comuns – Dia 357

Em dias como hoje fico olhando o vai e vem na rua, as falas desencontradas, a música alta dos carros que passam (cada carro uma variedade de batida) e me pergunto se a civilidade sai de férias.

Recordo-me que quando eu viajava de férias o que eu mais gostava quando chegava na praia era sentir a areia nos pés. Meus pais levavam sacos para recolhermos os lixos e, por vezes os vi recolhendo.

– Devemos deixar o lugar melhor do que o encontramos.

Hoje bem cedinho, caminhando pela orla era tanto lixo espalhado que ouso afirmar que a civilidade sai de férias sim e leva junto o respeito e o cuidado.

Há tempos isso me chama a atenção. É o sexto final de ano que passo morando no litoral e fico extasiada de ver como as festas de fim de ano pode mostrar o quanto ainda temos que caminhar para vivermos em sociedade.

Agora mais dois carros e suas músicas diferentes e tão iguais me atordoam o pensamento. Um rapaz atravessa a rua e joga sua latinha de cerveja vazia sem olhar para trás. Outro carro passa e da garagem ouço o estalo da lata amassando no asfalto. Mais uma vez me pergunto: – A civilidade sai de férias?

Não. Às férias, como o dinheiro, apenas colocam em evidência quem somos de fato. Algumas pessoas nem sabem o que civilidade.

E a temporada está só começando.