Mercúrio retrógrado, o jambolão e o trem – Dias (IN)Comuns – Dia 225

– Só pode ser Mercúrio retrógrado!

Desde ontem as coisas andam meio emperradas. Os eletrônicos mais lentos que uma tartaruga – se bem que tartarugas persistentes ganham de lebres indolentes. O trabalho moroso e as tentativas de concluir algumas atividades simplesmente eram mal sucedidas.

Claro, pensei logo no tal do Mercúrio retrógrado e lancei para ele toda a minha maldição. Nem percebi que era só o tempo pedindo um tempo. É aquele atraso entre apertar o interruptor e a lâmpada acender, ou virar a chave na ignição e o carro ligar.

I-ME-DI-A-TIS-MO. Isso não tem atraso, chega primeiro que a gente em qualquer coisa que nos propusermos a realizar. Chega tão cedo que por vezes se cansa. E desiste. Aliás, nós desistimos. E daqui a pouco lá vem uma nova ideia chegando e, antes dela, o imediatismo passa na frente e senta lá na frente a espera da gente.

Por isso eu digo:

– Só pode ser o Mercúrio retrógrado!

Assim é bem mais simples sair discretamente, pela tangente e deixar todo o medo de falhar sem seu dono: eu mesma!

Quando ouvi o tempo, ele calmamente sorriu com aquele ar de superioridade de quem sabe das coisas e falou comigo. É sério, não pense que além de ter pressa sou uma desequilibrada, não sou não. O tempo fala, às vezes com uma ironia irritante, outras tão gentil que parece me carregar no colo.

Hoje ele me falou com um jeitão de moleque, quis rir de mim e terminou com pose de guru.

–  Pode até ser que Mercúrio esteja retrógrado, mas desconfio que não é no céu.

Antes de encerrar a conversa ele me mostrou o pé de jambolão aqui na garagem e não perdeu a chance:

– Você sabe quando essa árvore foi plantada?

– Eu não!

– Pois é, quem a plantou já não está mais aqui. E você ainda aproveita a sombra e os frutos.

O tempo partiu e eu fiquei aqui recolhendo minhas desculpas e deixei Mercúrio em paz, esteja ele retrógrado ou não.

Mas, só por precaução, dei início ao que ao trabalho que preciso entregar no mês que já. Como dizia minha avó: “é mió sê aprevinido qui perdê o trem!”

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O dedo preto – Dias (IN)Comuns – Dia 224

Minha avó dizia que se uma coisa desandava era melhor deixar quieto, descansar o enguiço. Afinal, desgraça pouca é bobagem e uma desgraça leva a outra.

O encontro dominical da família estava arquitetado para um churrasco ao sabor do patriarca: picanha assada no espetoflex, girando calmamente enquanto os descendentes da Bota se engalfinhavam para ter a palavra primeiro.

Cerveja gelada, cenoura crua mergulhada no molho de limão com sal e a pururuca que só o Barão sabe fazer dispostos na mesa ao lado da churrasqueira recepcionavam quem chegava.

Hora de preparar o espetoflex, um espeto giratório de inox capaz de assar a carne por igual. Um apetrecho desejado pelos profissionais churrasqueiros domésticos. Até falhar!

E liga, mexe, desliga, desmonta, troca pilhas, liga e nada. Um churrasco devastado. Talvez fosse o fim dos churrascos em família.

E as tentativas frustradas davam pistas de que a carne voltaria para o freezer e um macarrão com molho seria o novo protagonista gastronômico do almoço do Dia dos Pais.

Para acalmar os ânimos e dar mais uma chance para o churrasco, o menino que acabava de levantar se propõe a descobrir o defeito.

E liga, mexe, desliga, desmonta, mexe daqui, liga, mexe dali e nada. Mexe mais um pouco e… aaaaaiiiiiii!

Entrou debaixo da unha do dedão uma parte do espetoflex ao tentar encaixar a outra parte solta. Terminou o trabalho. A bolha de sangue formada com a pancada escurecia enquanto dava a triste notícia.

– Pai, o motorzinho já era.

Sem o espeto giratório, com o dedo preto e a decepção do plano frustrado o pai precisava tomar uma decisão. Aceita e segue o plano ou se entrega ao macarrão?

Mas se o dia é de celebrar por que desesperar? Deixa o problema descansar e faz da forma antiga.

Ser pai é cuidar do dedo preto, apoiar novas formas de fazer as coisas e, sobretudo ser aquela forma antiga de fazer o churrasco quando tudo dá errado só para ter todos juntos.

A vida e a maré – Dias (IN)Comuns – Dia 223

Hoje me dei conta que os dias passam e são como a maré. O mar avançou, o rio saiu de si. Transbordou, rua cheia da água de rio e mar.

Há dias tão rasos e mergulhar profundo é impossivel. A água escapa, os pés tocam a margem. Piso e pego os dias largados ao lado das conchas.

Há dias plenos, submersos na água que invade. Para viver, flutuo. Para ir fundo, mergulho.

Rio nasce, não resiste. Corredeira forma e desce as montanhas. Salta, espalha, desliza. Contorna, junta, entrega. Rio cumpre a promessa.

Mar tempero e alimento. Aqui é rio por um momento.

Hoje sou gente maré cheia, transbordando gratidão e alegria. Nessa vida que é maré aprendi a dançar com as ondas e voar a favor do vento.

A vida é como a maré: às vezes alta, às vezes baixa; jamais a mesma.

Hoje me dei conta de que a maré é a própria vida.

Que tal um café? – Dias (IN)Comuns – Dia 222

Pela manhã, as providências para atravessar o Atlântico com os livros logo tranformaram-se num passeio. Enfim, depois de seis anos na Baixada Santista parei para um café, desses que se bebe na requintada xícara da história.

Desconfio que vivi em algum tempo longe desse meu. Um misto de encantamento nostálgico me invadia ao ver as imagens dispostas na linha do tempo rubra das paredes do Museu do Café.

As cores do vitral refletida no alto da cúpula do museu e o ferramental mostrando o caminho de orgulho e vergonha. A história da humanidade carrega uma saca pesada de usurpação e escravidão enquanto buscava (e ai da busca) o desenvolvimento.

Pouco se fala do valor social e da promoção da saúde mental que há numa xícara de café. Seja na mais fina louça ou na lascada peça de ágata. Aquele convite amigo para um café pode ser a dose certa de ansiolítico para curar os dias escuros.

Eu mesma sou adepta dessa técnica. Não posso ver uma amiga cabisbaixa que disparo:

– Que tal um café?

Nem imagino o que pensaram quando trouxeram as primeiras sementes. A história mostra que a economia foi o fio condutor, mas cada xícara de café com um amigo vale mais que ouro.

Além disso, previne tantos males e promove tantos amares que deveria ser prescrito de uma a duas vezes ao dia durante meia hora de fatias generosas de bom papo com o amigo.

Se a sua vida anda meio amarga pode ser falta do café – mesmo sem açúcar – em boa companhia é um bálsamo neutralizador de dias ruins.

Dias comuns se transformam em incomuns quando começam com aquele aroma de café coado vindo da cozinha.

Que tal um café?

Reunião da firma – Dias (IN)Comuns – Dia 221

Reunião da firma poucos falam, a garganta aperta a gravata só para mudar a ordem das coisas e se distrair.

Na mesa, papéis avulsos marcados em cores desbotadas. Os anos em gavetas e grandes realizações são nada mais que projetos. Reunião da firma prima por colocar projetos enrugados em pauta.

Maquiagem e botox para promover a aparência apodrecida do fruto maduro prestes a se desprender. Do pó ao pó, resma carcomida pelas traças que não têm nada mais interessante a fazer.

O âncora do jornal da noite fala pausado. A gravata apertava a garganta amarrotando as palavras engomadas. Afinal, as noticias são velhas. Chega um tempo que maquiagem e plástica não disfarça as dobras de velhos projetos.

Reunião da firma dá notícia dos noticiários forjados e suas velhacarias, mas insiste em deixar a garganta apertar a gravata ao invés de dar voz e vez às novas realizações.

Reunião da firma acaba com as gavetas abarrotadas de projetos e traças devoradoras.

Avisa que eu cheguei – Dias (IN)Comuns – Dia 220

É assim, primeiro dói demais. Tanto que o choro é inevitável, por isso a chuva insistente.

Foi assim que me senti nesses dias sem sol. A nuvem baixa que não podia ver o sol. Densa e escura só restava chover.

Ficar sem a luz cega. A vida atrofia e escorrega no limo, chega ao chão e rompe. Estilhaço espalhado na lama.

E a gente vira lama, nem lembra mais que é sol e brilha. Nem doi a ausência. Viver é amorfo e cabe em qualquer recipiente ou embarca num rabo de vento sem alento.

Dias se vão e já sou chuva molhando aqui dentro. Portas e janelas fechadas no meu recipiente.

A menina dos olhos encolheu quando a luz o sol entrou pela janela e anunciou:

– Avisa que eu cheguei.

A meninada da casa pulou para fora. O vaso quebrou. Portas e janelas abertas.

Que vaso me conterá agora?

Palavras desembestadas morro abaixo – Dias (IN)Comuns – Dia 219

Os longos cabelos amarrados num rabo de cavalo mal feito zigue-zagueavam enquanto ela pulava e segurava forte a minha mão.

– Mãe, preciso te falar uma coisa.

– Fala.

– Só quando chegar no carro.

Fiquei curiosa, mas as palavras pulavam da boca dela nos meus ouvidos como bicicleta desembestada morro abaixo. Faltava pouco para eu sair correndo para segurar a bicicleta e as palavras.

Quase pedi socorro num agudo longo e estridente, no entanto não foi preciso.

– Ai, agora ela vai ficar assim pulando e falando. Droga! Nem vai deixar eu falar.

Acelerei o passo com a desculpa da garoa, mas era a minha curiosidade que me empurrava. Você nem imagina como a curiosidade é ansiosa e inconsequente, às vezes.

Todos acomodados e antes de ligar o carro me virei para trás com ares de anda logo e conta.

Ela não fez a menor menção de contar. Ficou falando com o irmão. Eu já ia dar a partida quando o pequeno falou todo empolgado:

– Deita no banco. Olha como tá quentinho.

Virei para trás de novo. Não resisti.

– Não vai me contar? Já estamos no carro.

– É mesmo. Lembra que te falei que ninguém cantou parabéns pra mim ontem, né?

– Lembro.

Meu coração sumiu no peito e já me preparava para falar algo para ajudar a viver essa frustração quando a bicicleta desembestada desceu o morro mais acelerada ainda.

– Você não vai acreditar. Hoje a prô apagou a luz para cantar parabéns pra minha amiga. Eu estava cantando também e fiquei pensando que ela nem lembrou de cantar pra mim. Aí ela me olhou na hora e me chamou lá na frente também. Aí todo mundo cantou parabéns pra mim.

Alcancei a bicicleta no ‘pra mim‘ porque a fala parou com um sorriso desmancha gente, desses que as lágrimas viram a bicicleta desembestada morro abaixo (e sem freio).

O dia comum de quem busca o incomum no sorriso sincero da menina que ganhou o tão sonhado parabens pra você da professora e dos colegas na escola.

O dia incomum das palavras desembestadas numa bicicleta morro abaixo que tira o fôlego de quem apenas vive o comum.

A vida, a parede e o bolor – Dias (IN)Comuns – Dia 218

A vida passa tão à altura dos olhos, talvez pouca coisa abaixo ou acima, que nem percebi a umidade subindo pelas paredes e escurecer o teto.

Interessante que mais da metade do teto estava claro e resistia bravamente ã invasão parasita. Ambientes onde a luz bate não são propícios para os fungos. Naquele lado escuro da sala, a parede-porta alta castanha fechada para o frio não entrar, nada entrava, exceto o bolor.

Tanta vida parede-porta meio torta de tão alta, embolorada por não se dar ao desfrute de horas frouxas ao sol.

Sol queima, arde se passa da hora. Sol alumeia, resseca a veia se não hidrata. Sol clareia, mostra além da lua cheia.

Aqui na sala passa da hora de uma pintura porque o sol está encoberto e o teto parece que logo vai ceder à insistência do bolor que segue a escurecer.

A vida ãs vezes passa tão à altura dos olhos que fica tomada de bolor e não se enxerga um palmo adiante do nariz. Tropeça e cai. A visão escurece. Acaba.

Canário amarelo – Dias (IN)Comuns – Dia 217

Se eu pudesse ser aquele pássaro amarelo no muro, alheio ao brado do cão bravo que ladra para o vento, para a roda da bicicleta que passa, nota seu suplício e pedala para longe.

Asas pequenas o levavam alto. Na sarjeta, a areia revirada pelo cão faminto. Àvido, sedento, parecia perdido. Atacar é a maestria dos perdidos.

Cachorro medroso tão grande invade o terreno estranho pensando que é dono do que não lhe pertence.

Canário amarelo apenas voa e deixa a fúria dilacerante do medo estampado no cão se esgotar em si mesma. Para voar bastam asas.

Pequeno astuto pousado no muro, dançava enquanto os latidos eram alaridos. Pobre cão correndo em círculos perdia o alvo.

Se eu pudesse ser aquele pássaro amarelo no muro…

Uma conversa qualquer na sala de estar – Dias (IN)Comuns – Dia 216

Elisa levava a vida embolada debaixo do braço, deixando tesa a tristeza aparente e a aparência, reticente.

Ninguém sabia se era um problema de nascença, ou se foi o longo uso do termômetro para aferir a temperatura daquela menina mirrada e pálida que vivia doente.

– Nem sei como ela sobreviveu.

Confessou-me a mãe numa conversa qualquer na sala de estar.

– Tinha febre quase todo dia. E não se descobria o motivo.

De tanto ficar embolada nas cobertas, cresceu sem alorgar-se. Os tendões da vida encurtados impediam grandes saltos. Mesmo assim venceu.

Vestia a tristeza com roupas caras, belas casas e carros potentes. Débil sorriso e senil cobria o rosto.

– Elisa tem tudo o que quer, mas não é feliz.

Confessou-me a mãe numa conversa qualquer na sala de estar.

– Deve ser a febre guardada dentro dela. Do jeito que veio, foi. Mas eu desconfio que ficou enfiada em algum lugar bem lá no fundo da alma.

Não conheci Elisa. Hoje, mulher forjada na profissão, tem pouco tempo para vistar a mãe. Os encontros seguem um roteiro bem escrito. Um conto curto, visita social.

Dona Ernestina, analfabeta nas letras e versada em gente, numa conversa qualquer na sala de estar me sorriu indulgente antes de partir.

– Eu finjo que acredito que ela é feliz.