Entre o silêncio e a angústia – Dias (IN)Comuns – Dia 173

Estava na garagem encolhida na angústia do jogo empacado, sem graça, sem vida. Corri para lá porque a angústia me consumia. Não sou imparcial nessas horas. Ouvia os televisores na vizinhança. Por um instante o silêncio.

Não se via carros, não passava gente. O rio vazio, os barcos se foram. É dia de jogo. Enquanto a vida faz cena, a natureza se mostra plena.

Dentro, um alvoroço, um barulho, grito rouco de quem tanto fala e diz pouco.

Fora, o mar azul, silêncio em paz, gaivotas pousam na praia da saudade. Nada além.

Vida é para quem sabe dançar bem entre angustia e paz. Quem não se dá por vencido antes do fim do jogo.

Tem que brincar, tem que dançar, sair de cena e se acalmar. Sempre há tempo para um novo jogo, uma nova chance, um novo caminho.

Ao final, silêncio e alvoroço se reencontram é hora de voltar ao trabalho.

O jogo acabou, o Brasil ganhou e cada um voltou para o seu dia comum. Da janela eu via o mar se agitar.

Espanta os pássaros – Dias (IN)Comuns – Dia 172

Desde o primeiro dia de escrita alguns hábitos estão se estabelecendo. De comida tenho pouca fome, mas o mundo me dá um apetite que pareço criança esfomeada esperando a mãe servir o almoço. Enquanto o banquete é preparado eu me farto com os petiscos.

Desde que o ano nos deu uma nova chance, pelo menos é uma tentativa de fechar ciclos e iniciar sem ter que dar muitas justificativas. Afinal, é ano novo.

O cenário não me apresentava muita esperança de melhora. É preciso ser gigante para aceitar a nossa pequenez. Cresci para me aceitar tão pequena que sou.

Os dias agora guardam pequenas ações que podem trazem grandes mudanças.

Hoje pela manhã, a casa silenciosa era a minha sala de aula. Aprendo línguas por três aplicativos no celular. Li recentemente que é preciso usar as tecnologias a nosso favor, aprender é o tesouro que garimpo dela.

O silêncio foi rompido por agudos pios vindos do jardim. Ao meu lado Amora, a nossa gata, abriu os olhos de Mata Atlantica e levantou as orelhas, que giravam de um lado para outro fazendo a varredura do som. Ela se mexeu para sair e eu também. As portas e janelas estavam fechadas para o frio não entrar. Ainda bem, assim ela não sairia.

Amo pássaros. Antes da chegada de Amora e Poseidon eles vinham de bando para aproveitar o jambolão. Eram azuis, vermelhos, verdes, amarelos, beija-flores, sabiás-laranjeiras, Tiês-sangues, tantos que eu deixava um espaço com água e frutas para eles.

Amo gatos e ao mesmo tempo fico com o coração pequeno quando vejo restos dos pássaros que eles pegam. Já salvei alguns da boca da Amora, outros tantos recolhi mortos.

Aos poucos sumiram os cantos. Hoje ao ouvir um que mais parecia um filhote em treino corri para fora. Cuidei de deixar os gatos fechados dentro de casa. Um sabiá pequenino nos galhos baixos batia as asas ainda vacilante. Logo a mãe chegou.

– Vai! Saiam daqui. Não quero que morram!

Eu pulava! Batia palmas e até balançava os galhos. Os sábias subiam de galho em galho até que saíram a mãe mostrando o voo e o filhote titubeante.

Algumas coisas para serem preservadas precisam estar longe. Às vezes, o melhor a fazer é espantar os pássaros.

É assim mesmo – Dias (IN)Comuns – Dia 171

É conformismo escancarado. Três palavras para enterrar qualquer possibilidade de ir além.

– É assim mesmo! Você tem que se acostumar porque a vida é assim. Quanto mais chora pior fica.

A mãe consolava a criança triste por ser ridicularizada pelos colegas. Mais parecia uma sentença de morte. O decreto de uma lei irrevogável de um futuro congelado no que já nem deveria existir.

– Foi sempre assim. É o destino. Alguns poucos, bem poucos, têm sorte e despontam. Nós, reles mortais devemos nos conformar.

Foi o melhor que a mãe podia falar. Dona Aurora – a mãe – ouviu a mesma ladainha desde cedo.

– É assim mesmo, Aurorinha. Se brigar é pior. Sorria só o necessário para não te verem chorando. Entre e saia sem ser notada.

A menina cresce e desistiu da sentença selada naquela manhã fria. Saiu por aí com uma mochila velha nas costas. Quis aprender com a vida um outro destino.

Dona Aurora apelava para todos os santos a proteção divina para a filha aventureira. Vigiava o carteiro. A última carta trazia a foto no mais alto pico do mundo e um pequeno bilhete:

A vida é assim mesmo. Enquanto uns zombam, outros constroem grandes escaladas no silêncio. Beijo grande da sua filha que rasgou o decreto de um destino e fez da vidao próprio destino.”

Dona Aurora não sabia se ria ou se chorava. Mostrou a foto para a vizinha.

– Ah, essa menina é danada. Deu o nó nesse nosso destino. Partiu e deixou a gente nesse buraco.

Querer é verbo passivo. Fazer é o que traz sentido e dá rumo ao destino.

Implacável Tempo – Dias (IN)Comuns – Dia 170

Implacável tempo. Enquanto arrasto-me tentando levantar das rasteiras, asas ligeiras do Senhor Chronos não têm medo de serem alcançadas. Ninguém quer alcançá-las. Cada hora a mais vivida é hora a menos de vida.

Pela manhã recordei-me de uma conversa com a minha mãe quando eu era caloura na faculdade.

– Ah, se eu tivesse dezoito com a cabeça que eu tenho agora.

Eu a ouvia animada e ela finaliza certeira.

– Eu não teria essa cabeça de agora se não tivesse vivido o que vivi. Então viva, porque o tempo é implacável, mas não é inimigo.

Turbilhão de hormônios e emoções numa dança frenética derruba os desavisados. Disseram-me:

– Os cabelos brancos te envelhevem.

– Não, eles honram a minha história e de quem veio antes. O que me envelhece é o corte seco da navalha que decepa minhas asas e fico a rastejar.

O tempo é implacável, voa. Eu de asas cortadas a rastejar agarro-me às asas da imaginação e voo lado a lado com o tempo. Não o temo.

Meus cabelos brancos não falam de tempo, contam histórias. E o implacável (tempo) senta acanhado e se deixa parar, ouve histórias que nem o tempo poderia contar.

Ah, se não existisse o tempo…

Pipoca doce – Dias (IN)Comuns – Dia 169

Caminhava levando a confiança na bolsa. Um sorriso de passarela desfilava na calçada. O ponto de ônibus estava cheio.

A risada alta contagiava os que estavam sentados esperando a condução.

– Chicleeeeete e pipoooooca doooooce é um real!

Um rapaz alto segurava em uma das mãos um saco de pipoca doce, no ombro uma embalagem grande com várias pipocas. Ao lado, uma mulher ria espaçosa. Os passageiros do ônibus se divertiam com a cena. Eu também.

– Luana, você não pode falar assim baixinho, delicadinha. Tem que abrir o pulmão.

Luana se dobrava de rir, enquanto o jovem levantava os braços e a voz.

– Chicleeeete e pipoooooca dooooce uuuuuum reaaaal.

Se você quer vender não pode se esconder. Tem que aparecer e divertir.

Ali a céu aberto, num ponto de ônibus um jovem se divertia e ensinava.

Dias (in)comuns traz lições que a rua ensina.

Os bastidores – Dias (IN)Comuns – Dia 168

Dia de festa era muito bom, mas o antes e o depois eram melhores ainda. Juntava a vizinhança, a familia e os curiosos para preparar tudo. Cada um fazia o seu melhor. Era tanta risada, mãos encontrando-se, empenho e dedicação: a festa já acontecia.

O dia da festa passava como o flash da câmera fotográfica. A soca – o dia seguinte, que poderia durar quase uma semana – trazia, além dos comes e bebes do antes e do durante, a coluna social, fatos e fotos em primeira mão.

Os bastidores conseguem os momentos que nem todos verão e que serão as histórias tantas vezes contadas que ganham o status de LENDA.

Algumas festas nem somos convidados. Acompanhamos à distância pela tela da televisão – a Copa do Mundo. Em tempos de crise política e econômica, festas não são bem vistas. A prioridade é outra.

Preciso confessar que não me empolguei com a Copa do Mundo da Rússia. O vexame de 2014 nos campos, o desdobramento das obras inacabadas e realidade que se apresentou corromperam meu entusiasmo esportivo. No entanto, hoje foi a estréia do Brasil e mesmo com o resultado pífio, uma brincadeira iniciada num grupo da família num aplicativo de comunicado, trouxe-me a alegria dos encontros para os preparativos das festas e das socas pós festas. Risadas, trocadilhos, brincadeiras em códigos únicos que só os laços fortes compreendem.

Às vezes damos tanta importância para a festa grande e oficial que não percebemos os encontros encantadores que acontecem nos bastidores, longe dos holofotes.

A vida acontece nos bastidores enquanto preparamos a grande festa que é viver.

Não sei o que vai ser dessa Copa do Mundo da Rússia, mas sei que vou dar atenção ao que acontece na coxia, enquanto todos assistem ao espetáculo.

A joaninha anda na linha, eu não – Dias (IN)Comuns – Dia 167

Uma joaninha anda na linha traçada no papel, a mão desenha o risco e bichinha vestida de vermelho boladinho de preto encontra logo o caminho a seguir. Um vídeo curioso nas redes sociais que me chamou a atenção. Vários amigos compartilharam e foi o que mais apareceu na minha linha do tempo.

Se a joaninha anda na linha por que eu não? De longe até pareço alinhada, mas se chegar mais perto…

Hoje teve um evento solene para posse dos novos acadêmicos da Academia Itanhaense de Letras. Solenidades têm protocolos e rituais que podem se prolongar. Adultos baixam a cabeça e até cochilam, crianças se levantam e correm.

Antes de sair de casa rezem um rosário, a missa do galo e a da sexta-feira da paixão. Chamei todos os santos. Levei oferendas para Iemanjá e Iansã. Vesti burca. Invoquei os guias e arcanjos. Olhei nos olhos deles e disse:

– Hoje a mamãe tem um evento importante. Não tem quem fique com vocês. Eu sei que não vai ser nada legal e pode ser muito chato para vocês. Quero pedir que se comportem.

Eles acenaram positivamente. Acreditei. Saímos debaixo de chuva. Os mais velhos tinham compromisso com a ONG que participam. O marido estava numa viagem de trabalho. Enquanto a igualdade não chegar na divisão dos compromissos familiares e domésticos, ganharemos mais para pagarmos a babá. Ou a rede de apoio, formada em sua maioria por mulheres, assumirâ quinhão alheio.

Respirei. Conversei. Um levanta para pegar água, o outro vai atrás. Banheiro. Muda de cadeira, o outro também. O evento dobrou de tamanho.

Saí da linha quando chegamos em casa. Uma ladainha daquelas. Impaciência e falatório.

Penso que as crianças precisam ocupar os espaços. Ter sua espontaneidade respeitada. Penso também que as pessoas devem ter seus direitos respeitados, participando de solenidades com todo o protocolo que couber. E as mães? Que direito temos? Quando um filho nasce perdemos o nome. Somos a mãe de Fulano, ou de Beltrano. Pior, mãezinha. Precisamos carregar certezas e respostas que não temos. É um marco indissociável. Seremos sempre devedoras.

Às vezes me sinto emburrecer, a cara amarrada, emburrada, o semblante distante e cansado; a cada dia mais burra, porque qualquer coisa que diga ou oriente é idiota demais.

Não sou como a joaninha. Nem a maternidade é. Não há linha traçada a seguir.

Daqui a pouco vem o beijo de boa noite e os vejo dormir. Aí, a briga é minha comigo mesma:

– Por que foi tão severa?

Amanhã começa tudo de novo.

Que tédio – Dias (IN)Comuns – Dia 166

Algumas lembranças se perdem. Outras se repetem com tanta insistência que tenho a impressão que posso tocá-las se esticar braços e mãos.

Em Uberaba era inverno apenas nos dez dias da famosa exposição da ABCZ. Não sei como tem sido nos últimos cinco anos, mas não deve ter mudado. Nessa época os casacos e botas são peças obrigatórias.

Aqui, o inverno se pronúncia no outono. Faz discursos breves para confirmar sua chegada. Tem vezes que se empolga e quer dominar espaço alheio. Se o outono não se cuidar terá menos um mês para se manifestar.

Mesmo num país tropical abaixo dos trópicos a vida pode ir para a geladeira. A garoa fina molha por insistência e o vento se alterna entre os extremos que transformam brisa em vendaval. Quase uma semana assim e a frase mais ouvida no dia é:

– Que tédio mãe! O que que a gente pode fazer?

Consulto a memória de longo prazo.

– Hum, o que eu fazia em dias frios quando eu era criança?

Ou não havia dias frios, ou não há memória registrada. Parece que só tinha sol e calor. No máximo, chuvas de verão no fim de tarde que não nos impedia de aproveitar a piscina.

Talvez não houvesse tanta pressão para se estar ocupado o dia todo. Podíamos nos perder nas horas. Sentar na porta de casa com os amigos. Escolher para ler um livro que não estava na lista dos principais vestibulares do país.

O tédio é a nossa incapacidade de aceitar o tempo das coisas e querer impor a elas esse nosso relógio cronológico que marca em segundo, minutos e horas o que fica guardado só eternidade.

Tédio é berçário da criatividade. Venho descobrindo que também gosto do inverno. Nesses dias gelados eu aqueço meu tédio criativo debaixo das cobertas com as crianças.

A preguiça e a sopa – Dias (IN)Comuns – Dia 165

Atirem-me num poço profundo. Eu mereço. A preguiça, pecado capital e a grande inspiração para o desenvolvimento tecnológico, fincou pé em mim. Parece bicho de pé que entra debaixo da unha: coceirinha boa sem fim, quanto mais a gente coça, mais coça. Não tem começo, não tem fim. É assim e pronto.

Nesses momentos uso a massa cinzenta para ajudar a preguiça ficar quietinha onde está – em mim – numa possessão autorizada. Por que não fazer uma sopa quentinha para o jantar. Bastante que sobre para o dia seguinte de preferência.

Corta bem miúdo alguns legumes, cebola e alho. Frita um pedaço de bacon. Um pouco de sal. Mistura tudo e deixa a água ferver. Junta o macarrão de sopa e voilá, pronta. Acrescente cheiro verde e sirva. Queijo ralado e pão compõem o prato de bom grado.

A preguiça tem o seu encanto. Menina marota, boa de conversa. A gente até acredita que dá para servir sopa em qualquer ocasião.

Qando o tempo esquenta sopa e preguiça podem deixar um abacaxi coroado de encrencas para descascarmos.

Vejam só o que tem se tornado o mundo de tanto buscarmos facilidades. Fazer o certo nem sempre é fácil, nem deixa o almoço pronto para o dia seguinte.

Ainda bem que o frio é a licença da natureza para chamarmos a preguiça de hibernação. Então, resgatem-me do poço! Estou apenas em hibernação.

Temporal – Dias (IN)Comuns – Dia 164

Portas e janelas fechadas. O vento anunciava o temporal pouco depois do meio dia. Profecia cumprida de quem sabe ouvir a natureza.

Ontem, um dia lindo e quente. Hoje, a manhã de mar verde, como ainda não havia visto nesses cinco anos, quase ajoelhou-se a suplicar para lavar as roupas e aproveitar o tempo que em nada lembrava o fim de outono. Preferi dar atenção aos estudos e escritos.

Quando busquei as crianças na escola ontem, fui alertada por uma conhecida de que o veranico era promessa de frio e chuva.

Aqui aprendo a exercitar a bússola interna, o relógio biológico e a profecia da natureza.

É uma outra forma de usar os sentidos. A pressa não têm vez. Observar e sentir a natureza nas delicadezas. Aceitar a força ríspida e dura que não poupa nada. Chega e se cumpre. É natureza!

O vento virou e subia com rapidez. Vestiu o céu de branco. Em segundos o despiu para cobri-lo de tecido denso de nuvens prestes a derramar a força das águas. Véu quase negro, esvoaçante nas rajadas de água e raios.

Portas e janelas fechadas. Observar. Silenciar.

Temporal tem sua beleza. Foi melhor aceitar a cômoda vida comum a ousar desbravar raios e trovões.

Preguiça e inspiração nas páginas de um livro.

Passou o temporal. Descansa. Amanhã é dia de ordem.